OS MOTIVOS DA GREVE DE PROFESSORES NA BAHIA E O “RAIO X” DA EDUCAÇÃO ESTADUAL NO TERRITÓRIO DE IRECÊ.
Hoje, 11 de maio de 2012, os Professores do Estado da Bahia encontra-se em greve ha exatamente um mês. Mas afinal, o que significa greve? Qual a importância dessa greve atual para a educação?
De acordo com o artigo 2º da Lei 7.783/89 que regulamentou o direito a greve para os trabalhadores, ela pode ser conceituada como a suspensão coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial de prestação pessoal de serviços. O processo atual de greve dos professores no estado da Bahia detém um expressiva importância, também, pelo fato de já ter contribuído, e ainda estar contribuindo, com a compreensão sistemática e a publicização do panorama estrutural do nosso sistema educacional na Bahia. A exigência, por parte da categoria, de um referido reajuste salarial e a resistência retaliadora do Estado, são apenas a ponta do “iceberg” nesta narrativa.
Quais são os reais motivos desta greve? Em novembro do ano passado (2011), com autorização do Governo da Bahia, seus representantes assinaram um acordo com a categoria de professores onde se comprometeram a conceder reajuste salarial a todos(as) os professores(a) da rede estadual, de acordo com o reajuste que fosse fixado, pelo Governo Federal ao valor/aluno do FUNDEB, posteriormente fixado em 22,22%. Chegado o momento do reajuste, em 2012, o Governo contesta a existência de tal acordo. Após a categoria apresentar o documento assinado, o governo passa a admitir que há um acordo e afirma não ter condição orçamentária para cumpri-lo. Esse foi o estopim da greve, mas não a necessidade essencial.
A greve é deflagrada em 11 de abril e inicia-se o contra ataque do Estado à categoria. Primeiro veio a consideração de ilegalidade da greve, depois os cortes indiscriminados de salários (inclusive de aposentados, trabalhadores em licença médica, em licença maternidade, e os que não aderiram à greve).
Posteriormente veio a aprovação de um Projeto de Lei, na assembléia legislativa, que transformou os salários dos professores possuidores apenas do nível médio, em subsidio. O que significa isso? Significa que algumas conquistas históricas da remuneração dos(as) professores(as) foram aglomeradas e transformadas em uma única “coisa”, o subsídio. Essa foi a maneira que o Governo encontrou propagandear que está pagando o piso a estes profissionais.
Por qual motivo o Governo assinou o referido acordo, já que não poderia honrá-lo? Isso é bastante simples de se responder. Desde que a lei do Piso Nacional dos professores foi aprovada no congresso, em 2008, tivemos notícia de que um outro projeto de lei (PL 3776/2008) tramitava por ali objetivando modificar o índice de reajuste do Piso Nacional, visando que o mesmo tivesse como base o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), e não mais o índice do valor/aluno, do FUNDEB. Alguns Governadores, dentre eles o da Bahia, buscou articulação para que isso fosse aprovado lá em Brasília, e passasse a vigorar em todo o País.
O Governo da Bahia assinou o acordo com os professores apostando todas as fichas na aprovação desta PL 3776/2008, assim, em 2012 reajustaria o Piso pelo INPC, que ficou em torno de 6%. Sem a desejada aprovação, o Governo da Bahia recuou do acordo firmado com a categoria de professores.
Além desta legítima reivindicação dos professores, existem outros motivos que podem justificar esta grave. Imaginando eu que a situação da educação na Bahia seja semelhante em todo o seu território, farei uma abordagem tomando como base o Território de Identidade de Irecê, composto por 19 municípios.
Há anos, os professores e diretores de quase 30 unidades escolares vêm cobrando à Secretaria de educação, através da DIREC 21, diversas melhorias funcionais. Muitas das escolas não contam com segurança, porteiro, técnicos para laboratórios de informáticas e de ciência (onde eles existem) e quadro regular de educadores. Um outro problema grave é a falta de coordenadores pedagógicos nas escolas. No geral, o que vemos são escolas de grande porte funcionando com um único(a) coordenador(a) para atuar nos três turnos e tentar fazer milagres.
Voltando a falar da categoria dos professores, fiz questão de realizar, enquanto atividade de greve, um estudo, baseado em consultas às diretoras e diretores das unidades escolares da DIREC 21. O seguinte resultado não revela uma situação confortável:
- Mais de 40% dos professores do estado, na DIREC 21, trabalham em regime de contrato REDA e PST (e ainda estou desconsiderando aqui os estágios de IEL, que assumem o lugar dos(as) professores(as) em sala de aula);
- Se tirarmos da conta as quatro escolas de sede de Irecê (Polivalente, Modelo, Luiz Viana e CETEP), temos praticamente metade dos professores atuando com seus direitos trabalhistas negados e se doando profissionalmente diante da incerteza.
- Quem atua em contrato de PST: recebe baixos salários, não tem direito à férias remunerada, não recebe13º salário, não possui FGTS, seguro desemprego e não tem estabilidade.
- Os(as) vários(as) professores(as) que atuam sob o regime de PST, que em muitas escolas constituem a maioria, estão sem receber salário sente ano de 2012. Até hoje, 11 de maio, nenhum professor dessa modalidade de contrato recebeu salário. Se houver legalidade nisso, a moralidade passa longe.
- Por conta do excessivo número de contratos no quadro de professores, há uma desestruturação do poder de articulação desta categoria (o medo de perder o emprego, na maioria das vezes, fala mais alto). Os formadores de opinião e incentivadores de censo crítico nos(as) estudantes, “não podem” reivindicar melhorias coletivas e exercerem as suas cidadanias no estado democrático.
- Muitos dos que, ainda que nesta situação, tiveram coragem de aderir à greve, recuaram diante dos cortes de salários e outras sutis pressões e suscitação de demissões.
Gostaria de concluir deixando bastante claro que essa não é uma produção de um oposicionista político ao governo. Muito pelo contrário, enquadro-me na situação crítica. Por ter contribuído autonomamente para construir o presente contexto sócio-político no qual vivemos, tenho moral e propriedade para tecer as críticas que considero importantes.
Enquanto sonhador de uma educação cada vez mais qualitativa, fica aqui a minha indignação e o meu apelo para que o Governo da Bahia busque junto ao Ministério da Educação os recursos necessários para honrar o compromisso firmado e sanar todos estes problemas acima citados, pois esses entraves inviabilizam a veracidade de qualquer discurso de qualidade educacional na nossa Bahia.
Data: 11 de maio de 2012
Categorias: AMÉRICA LATINA, COISAS DE IRECÊ, POLÍTICA, PRINCIPAL















